Leitura: Jane Austen The Secret Radical, Helena Kelly


Jane Austen não é a escritora que você pensa. Você não é a leitora ou leitor que Jane esperava ter. Ou seja: está tudo errado. Mas Helena Kelly veio ao nosso resgate e escreveu esse livro espetacular, brilhante e didático, que vai fazer qualquer fã de Jane Austen querer ler todos seus livros novamente.

Cada capítulo do livro é dedicado a destrinchar um dos famosos romances de Jane: Northanger Abbey, Sense & Sensibility, Mansfield Park, Pride & Prejudice, Emma e Persuasion. Helena Kelly nos explica o contexto histórico da época em que foram escritos e nos abre um portal. Ela nos explica os porquês: os nomes dos personagens, as localidades, os diálogos que até então achávamos que eram detalhes banais, as referências que nem lembramos porque não nos acrescentam nada. Até agora!

Eu já gostava de Jane Austen, e modéstia a parte eu já tinha percebido algumas dessas nuances apontadas pela Helena Kelly. Eu sabia que Jane não escrevia apenas sobre histórias de amor, sofrimentos das heroínas e dramas familiares. Consegui captar um certo tom sarcástico em seus livros, principalmente Pride & Prejudice. Mas esse livro me revelou uma nova Jane: uma mulher revolucionária, culta, e que compreendia perfeitamente os problemas socio-econômicos da época, opressões e privilégios.

Jane faz diversas críticas em seus livros. Cabe a nós correr atrás da informação para entendê-los da maneira intencionada por ela, e Helena Kelly nos faz esse favor.

Brecon Beacons


E lá fomos nós mais uma vez rumo ao País de Gales. Não é sempre que temos feriado prolongado de quatro dias aqui, e como não sabíamos se os nossos passaportes teriam retornado (enviamos para renovação de visto no ano passado) a tempo de viajarmos para outro país, escolhemos Gales como destino de Páscoa.

E os passportes até chegaram, mas ainda bem que achamos melhor não arriscar. A região do Parque Nacional de Brecon Beacons, pra onde fomos dessa vez, é um dos lugares mais lindos do mundo. Eu sei, eu sei, não conheço o mundo todo. Mas tem tanta gente que conhece quase tudo e nunca deu um pulinho logo aí, nesse cantinho esquecido da Grã Bretanha. Então vamos chegar em um acordo: eu chamo de um dos cantos mais lindos do mundo mesmo sem conhecer o mundo todo e você, que já rodou o globo, me dá um voto de confiança e vai até lá na próxima oportunidade. Combinado?

Essa viagem superou todas as minhas expectativas, como vocês já devem ter percebido. Começamos com o pé esquerdo, subindo uma montanha e chegando no topo sem vista nenhuma, com tudo encoberto. Mas depois disso, só alegria! Um monte de trilhas maravilhosas que nos levaram aos anais de Nárnia, muitas cachoeiras, outras montanhas, lagos... muita natureza, cenário exuberante, vontade de ficar.

E com a vantagem de ter sido um bom treino pro Kilimanjaro. A gente não só andou muito morro acima como eu até fiz xixi no mato pela primeira vez.

E o Martin caprichou no vídeo dos melhores momentos, está rapidamente se tornando um videógrafo de mão cheia!



Mal posso esperar pela nossa próxima aventura galesa : )

Nonsense


Fiquei toda toda me parabenizando pela frequência das postagens em março e cá estou eu em abril há vários dias sem publicar nada! Não dá pra elogiar : ) que a coisa desanda!

Hoje é a segunda feira de Páscoa, e por mais estranho que pareça, é uma data de verdade. Eu não inventei, a segunda feira após o domingo de Páscoa é feriado! IEI!! Então estamos aqui, naquela segunda com cara de domingo, aproveitando ao máximo o único feriado de 4 dias que temos (bom, se os dias 25 e 26 de dezembro caem em uma quinta ou sexta ou segunda e terça, também ganhamos 4 dias de folga, mas né, não é sempre que o calendário colabora, então da licença que a Páscoa é garantida!).

E já estou no terceiro parágrafo do post sem a menor ideia do que continuar escrevendo. Não sei nem porque comecei. Talvez pra falar da viagem que fizemos pro País de Gales? Ou pra falar que meus pais chegam essa semana? Sei lá. Vai ficar essa enchição de linguiça nonsense assim mesmo. Desculpaê pelo tempo perdido! Meu e seu : )

Leitura: Você Já é Feminista, coletivo AzMina


Mais um ótimo livro sobre feminismo, e dessa vez em português! Havia comprado há um tempão e mandei entregar na casa dos meus pais. Finalmente meus sogros vieram visitar e trouxeram pra mim. Como eu comentei no Instagram, eu gostei bastante, mas só achei que não é um livro para quem ainda não se descobriu feminista, como o título dá a entender.

Pra mim, esse é um livro pra quem já não mais dúvidas sobre ser feminista. Isso porque ele abrange diversos temas que as vezes a gente nem sabe que são questões feministas, quando colocamos um pézinho no ativismo.

Por exemplo, logo no começo há um capítulo sobre as vertentes do feminismo, que eu não sabia que existiam quando comecei a me interessar pelo assunto. Foi só depois de alguns meses fazendo o Conexão Feminista e seguindo outros grupos que aprendi sobre as semelhanças e diferenças de cada uma dessas vertentes. Pra quem tem dúvidas sobre o Feminismo, essa "divisão" pode parecer algo que segrega (o que não é verdade, eu também tinha essa dúvida, e depois entendi que essas vertentes apenas refletem o quanto somos diferentes umas das outras), em vez de agregar.

Enfim, esse é apenas um exemplo. O livro é composto por diversos textos de diversas autoras. E como sempre acontece em livros assim, alguns textos são muito melhores que outros. Pra mim, o melhor é o que trata do trabalho doméstico. Talvez seja porque foi por causa do trabalho doméstico que me descobri feminista, mas também a autora explica muito bem o quanto essa questão está interligada com problemas mais graves, como cultura de estupro e violência. É um texto ótimo pra quem acha que a divisão dos afazeres domésticos de forma justa entre homens e mulheres é apenas um pequeno problema, que não deveria gerar assim tanta polêmica.

Pra quem se interessar, aqui nesse link você pode compra-lo. Esse é um link afiliado, ou seja, se você comprar o livro por aqui, vai gerar uma comissão pra mim. Pra mim não, pro Conexão Feminista. É uma maneira que encontramos de monetizar esse projeto, que toma bastante do nosso tempo e gera despesas com servidor, domínio e hospedagem do podcast, pra citar alguns.

No thanks, Heloisa


Tem uma editora de um site para o qual eu já escrevi há um tempo (apenas uma matéria) e adoraria escrever de novo que me responde os emails que mando com sugestões para artigos de uma maneira peculiar.

No thanks, Heloisa.

Tudo bem que é raro alguém responder (geralmente só respondem quando querem que você vá em frente com o trabalho), e é melhor saber que não vai rolar do que ficar no limbo. Mas eu acho esse email dela (já recebi essa resposta mais deuma vez, diga aí como é facinha essa vida de lidar com fracassos na sua rotina, pra quem acha que eu levo uma vida de pernas pro ar) tão esquisito, mas tão esquisito. É só esse "não, obrigada", sem qualquer justificativa. Poderia ser "não, estou sem budget" ou "não acho que tenha a ver com o site", ou "esse tema está ultrapassado". Não precisa escrever muito, mas podia me dar uma luz, né?

Quando eu estava do outro lado e precisava responder para os freelancers que me mandavam sugestões, sempre tirava um tempo do meu dia para explicar a razão de não acatar a tal sugestão. Eu sempre tive noção do trabalho que dá ir atrás de ideias e moldá-las para determinados canais, sugerir o tema dentro do ponto de vista do tal site/revista/jornal onde queremos ser publicados.

Quem vive de escrever sabe o quanto é difícil arrumar ânimo e seguir em frente. Mesmo os escritores e jornalistas mais bem sucedidos passaram por isso, então eu sempre penso: poxa, quando você chega lá, custa acender a lanterna pra iluminar o caminho dos outros?

21 em 31


Alguém aí notou como março foi um mês produtivo nesse bloguinho? Comecei o mês com uma missão: escrever um post por dia. Ok ok, eu sei que não completei a tarefa, mas serei uma dessas pessoas irritantemente positivas e ver o copo meio cheio. Afinal, há quanto tempo eu não escrevia com essa frequência? Há muito tempo ; )

Eu realmente acredito que escrever não é questão de inspiração (talvez um pouco), mas sim da combinação de prática com repetição, e uma depende da outra. Uma vez que eu entrei no modo "o que vou escrever hoje?", comecei a novamente enxergar meu dia a dia como tema para posts.

Confesso que poderia ter feito os 31 posts, porque assunto tinha (tem, quem sabe os posts ainda serão escritos), mas as vezes nem me dava conta de que um ou dois dias haviam passado sem blogar.

Abril promete ser um mês tão cheio de eventos como foi março (mas não vai ter tatuagem!). Vai ter viagem, vai ter visita, vai ter muito trabalho. Falando em trabalho, vai ter até um revival, pois vou ao antigo escritório por alguns dias pra dar uma forcinha para as colegas que estão sobrecarregadas de tarefas. Portas abertas, certo?

O Instagram perfeito


Eu amo amo amo o Instagram. Conheci tanta gente legal lá, descobri tantos lugares para visitar em Londres e outras cidades, fora que é uma ótima maneira de saber por onde andam os amigos e conhecidos.

Eu costumo levar o nome dessa rede social a sério: Instagram = foto instantânea. Prefiro postar fotos que tiro com o meu celular mesmo, e que mostram o que estou fazendo naquele momento ou, no máximo, algumas horas ou um dia atrás. Há quem guarde um arquivo de fotos pra ir postando aos poucos, e há que publique apenas imagens profissionais, tiradas com câmeras potentes mesmo. Afinal, muita gente usa a rede para divulgar seus serviços, e quem não gosta de uma foto bem linda, não é mesmo?

Mas uma tendência mais forte no Instagram é a de deixar o feed uniforme. Ou seja, em vez de pensar apenas nos filtros aplicados na foto individual, a pessoa posta apenas imagens que combinem entre si, criando assim um estilo próprio. Por exemplo, apenas fotos com fundo branco, ou usando sempre o mesmo filtro, ou sempre muito coloridas. Eu acho lindo, acho mesmo, e até pensei em deixar o meu assim (tipo isso aqui).

Só que percebi que não funciona pra mim. Como falei antes, gosto de registrar o momento. Uso filtros e ferramentas pra deixar a imagem mais bonita, confesso, mas deixar de postar algo porque não combina com o que postei anteriormente? Ah não! Cheguei a fazer um curso para melhorar o feed do meu Instagram (um curso online, em vídeos) e me arrependi amargamente do dinheiro gasto. Escolher uma paleta de cores? Palavras chave? Parar de publicar fotos que "não agradam"? Não, obrigada.

Acho que isso casa com o que escrevi recentemente, sobre as excessivas trilhas sonoras no Snapchat. Todo esse lance de planejamento, preparação, pra uma coisa que pode ser bonita se for simples mesmo.

Bom, vou continuar com o meu Instagram bagunçadinho, ora colorido, ora preto e branco, ora saturado, ora apagado.



Leitura: Meia Noite e Vinte, Daniel Galera


Eu queria ler algo do Daniel Galera faz tempo, pois sei do succeso que foi o livro "Barba Ensopada de Sangue". Por coincidência, minha sogra me trouxe de presente o "Meia Noite e Vinte", e ele acabou furando a minha interminável fila de livros feministas porque eu queria ler alguma ficção curtinha, e em português.

Eu fiquei um pouco dividida: por um lado, fiquei bastante entretida, mas por outro acheio... meio vazio. Eu já falei um monte de vezes aqui que adoro livros que transformam vidas comuns (rotina, perrengues, pequenas felicidades) em boas histórias, como é o caso do Stoner. Mas o Meia Noite e Vinte começa com esse lance de vidas comuns e no final me deixou a impressão de que queria passar alguma mensagem profunda, e eu honestamente achei o final patético.

O livro é super atual, se passa logo depois dos protestos de 2013, e os personagens tem mais ou menos a minha idade. Falam muito de redes sociais, e pra mim ficou a impressão de que o autor queria porque queria mostrar "olha como eu sou antenado", o que me deu um pouco de vergonha alheia. Talvez vergonha da minha geração mesmo, que não faz outra coisa senão isso (eu inclusa), e me dá agonia de pensar que daqui alguns anos as pessoas lerão esse livro e vão pensar: mas é assim que esse povo era? Que bando de chatos!

Quando eu terminei o livro realmente estava na dúvida se tinha gostado ou não, mas agora escrevendo esse post percebo que tenho mais coisas negativas do que positivas pra falar. Como algumas passagens inúteis que eu penso que seria o tipo de coisa que eu pediria pro autor cortar se editora eu fosse. Não sou editora, mas sou blogueira, então, Daniel Galera: pra que diabos o sangramento do nariz na cena do motel? E fala a verdade: você sempr quis escrever "um cachorro mijando em um cachorro cagando" e agora que você é um autor famoso conseguiu que o editor aprovasse né? Tá tirando uma com a minha cara?

Ufa! Era só isso que eu queria falar. Talvez eu leia mais alguma coisa dela pra definir se eu gosto ou não.

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O sucesso do fracasso




Eu tenho uma teoria sobre a minha geração. Essa turma aí com uns 30 e poucos, quase 40. Eu acho que a gente ficou meio perdido na vida profissional: a gente cresceu idealizando uma boa faculdade e um emprego decente pra pagar as contas. Mas aí, agora que estamos próximos ao ápice da carreira, começamos a questionar: é isso mesmo? Eu trabalho tanto pra isso? A gente vê a turma mais nova se dando bem no Youtube, criando startups geniais, conseguindo investimento pra inventar um alface mais verde ou um aplicativo que cozinha pra você e bate aquele desânimo. Afinal, qual a nossa contribuição com o mundo?

E vem aquele sentimento de fracasso. De não se encaixar no lance da carreira em empresa mas ter muito medo de partir pro estilo de vida do empreendedorismo (eu me irrito um pouco com essa palavra, porque há um sentimento geral que dá a entender que empreender é o estilo de vida das pessoas de sucesso, empreender é para vencedores e carteira de trabalho para fracassados, mas enfim, vocês entenderam).

Aí veio uma amiga minha e me falou a melhor coisa que eu ouvi nos últimos meses: se sentir fracassado nesse mundo de hoje é sinônimo de sucesso. Eu achei o máximo! E depois de muito tempo, me senti novamente bem sucedida. Não se encaixar, finalmente, vale a pena.


Silêncio


Vocês sabem que eu sou a maior defensora das redes sociais e odeio essa pentelhação de "ai, a internet acabou com a interação das pessoas ao vivo e a cores, ai que horror todo mundo é viciado nos seus telefones, ai que saudades de antigamente...", realmente detesto esse papinho. Então quando eu critico alguma coisa da vida online, podem crer, eu pensei muito antes.

Como a gente tá sempre com o celular na mão, sempre assistindo alguma coisa, sempre interagindo, eu tenho sentido falta do silêncio. E notei isso por causa do Snapchat. Sei lá o que aconteceu, que um monte de gente que eu sigo/assisto, começou a fazer snaps com música de fundo. Além de mostrar a paisagem, a pessoa vai lá e joga uma trilha sonora junto. E não é uma pessoa (sem indiretas gente), e não é vez ou outra. Tá todo mundo fazendo isso! Fico me sentindo uma criança de 2 anos, sabe? Que precisa ser entretida o tempo todo, até quando tá almoçando? A diferença é que tenho 36, e consigo apreciar a paisagem sem barulhinho de fundo.

Eu fico imaginando o trabalho que dá pra fazer snaps assim. Abre o app de música, escolhe uma música que "combine" com o que será mostrado, abre o snap e filma. Já foi toda a espontaneidade do momento. Fica um negócio totalmente planejado. A pessoa fica ali na calçada, ou no topo de uma montanha, parada, lidando com um monte de apps abertos, pra filmagem ficar "melhor" e agradar os espectadores.

Gente, nem tudo precisa de trilha sonora. A gente pode andar na rua ouvindo os carros, andar na trilha ouvindo o vento e na praia ouvindo o mar. Eu sou super a favor de mostrar a vida no Snapchat, fazer fotos lindas pro Instagram e participar de discussões no Twitter. Mas deixa eu ver como é mesmo? Tira a musiquinha de fundo? Se eu quero ouvir música, eu tenho minha própria playlist!

Valeu ; )

Leitura: Dear Ijeawele, Chimamanda Ngozi Adichie


Faz pouco tempo que li o Americanah, dessa mesma autora. Mas a primeira vez que li Chimamanda foi o manifesto "Sejamos Todos Feministas". E esse é o segundo manifesto feminista publicado por ela, que eu adquiri junto com o ingresso da palestra dela que rolou por aqui há pouco tempo (e foi sensacional).

Mais uma vez, é um livro curto e muito didático. Em português o título foi traduzido para "Para Educar Crianças Feministas", mas eu acho que essa tradução meio que faz um desserviço. Afinal, quem não tem filhos ou quem tem filhos já adultos pode sentir que esse livro não é para eles. Mas é sim, é pra todo mundo. Eu acho que ele funciona como uma continuação do "Sejamos Todos Feministas", o qual é de certa forma uma introdução ao feminismo. Já o "Dear Ijeawele" desenrola melhor alguns tópicos e nos mostra como podemos aplicar o feminismo no nosso dia a dia (atenção, atenção! Hora do jabá! Já rolou vídeo colaborativo sobre esse tema, assiste aí, vai!!).

O livro tem esse nome porque originou de uma carta que a Chimamanda recebeu de uma amiga, pedindo conselhos para criar sua filha como feminista. E a resposta de Chimamanda foi feita em 15 sugestões. E são essas 15 sugestões que encontramos no livro.

Ontem eu fiz uma tatuagem


Há um tempo eu meio que tinha decidido que não faria mais nenhuma tatuagem. Eu digo "meio que" porque, né, eu fiz mais uma. Uns anos atrás eu até tinha vontade de completar metade do meu braço esquerdo, onde estão duas grandes tatuagens, mas não conseguia pensar em nenhum tema que me agradasse. E quando eu decidi todas as minhas tatuagens, eu estava muito apaixonada pela ideia, eu queria muito, e fazia tempo que eu não sentia essa mega vontade de estampar algo no meu corpo.

Quem tem tatuagem sabe do que eu estou falando. Tenho tantos amigos e conhecidos que me falam que querem fazer, mas não tem coragem ou não sabem o que. Pra mim, quando você quer mesmo, você sabe. A coragem aparece. Até eu, a mais cagona da vida que passa mal vendo seriado de hospital na televisão, passa por uma tatuagem.

E aí foi assim. Um belo dia eu pensei que poderia mostrar o meu envolvimento com o feminismo de forma mais óbvia. E aí de novo, a coragem e a vontade apareceram. Esperei uns meses antes de procurar uma tatuadora (tinha que ser mulher, eu sempre fui tatuada por homens, e não havia me dado conta disso até pensar nessa nova tatuagem), pra ter certeza de que queria mesmo. O tempo passou, a vontade aumentou. Eu achei uma tatuadora pelo Instagram que topou usar as minhas referências e criar algo exclusivo pra mim (montei um board no Pinterest com algumas imagens e mandei pra ela, pra quem tiver curiosidade, aqui está), a Hannah Willison (aliás, ela usa tintas veganas, pra quem possa interessar).

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Trocamos alguns emails, marcamos a data, paguei o depósito, ela me mandou o desenho e eu me apaixonei. Não esperava algo tão legal, e realmente mostra como ela é boa. Ela entendeu direitinho o que eu queria a partir do que mandei pra ela, e criou algo infinitamente melhor. Tem sempre quem me pergunta se não é muito caro. Sim, é caro, bem caro. Mas é algo que vai ficar comigo a vida toda, algo que tem que ser muito bem feito. Se for barato, desconfie. Fora que o trabalho físico do tatuador tem que valer muito mesmo, eles ficam em umas posições desconfortáveis, mega concentrados, com uma agulha na mão por horas a fio. Todos devem ter a coluna estragada e artrite no braço e ombro!

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Então está aí, minha mais nova tatuagem. Sempre me perguntam os significados das minhas tatuagens e a maioria não tem grandes motivos, eram apenas desenhos que eu gostava (gosto) e queria fazer. Tenho uma frase no pé que sim, tem significado, e obviamente o nomezinho do Martin no meu pulso esquerdo (que sim, foi um impulso e um perigo absurdo fazer quando ainda estávamos namorando, mas está feito, e obviamente tem um significado). Aliás, pensando bem, minha primeira tatuagem, que é uma rosa bem pequena e está bem apagadinha, no meu quadril, tem sim um significado: a minha liberdade de tê-la feito aos 18 anos, depois de anos ouvindo meus pais falarem que eu só poderia fazer uma tattoo quando tivesse 18 e trabalhasse pra ganhar meu dinheiro.

As respostas para as perguntas de sempre:
  • Doeu? Sim. Mas me incomodou mais ficar com o braço parado por muitas horas. Toda vez que a gente fazia uma pausa parecia que eu nunca mais ia conseguir mexer o braço.
  • Quanto tempo levou? Umas 4 horas e meia
  • Quanto foi? Mande email pra tatuadora e faça um orçamento com ela ; )
  • Você não tem medo de se arrepender? Essa é a mesma pergunta que me fazem quando descobrem que não quero ter filhos. Imagina se eu deixar de fazer algo ou fizer algo por causa do medo de arrependimento futuro? Uma decisão assim é algo com o qual temos que convivar e lidar com o possível arrependimento quando ele chegar
  • Você não tem medo de não conseguir emprego por causa das suas tatuagens? Até tenho e sei que existe esse preconceito. Mas se alguém não me contratar por causa disso, essa pessoa é muito babaca e melhor pra mim não trabalhar com alguém com essa mentalidade
  • O que o Martin acha das suas tatuagens? Sério mesmo que você tá me perguntando isso? Veja esse hangout e tente de novo

Leitura: The War On Women, Sue Loyd-Roberts


Sue Lloyd-Roberts morreu logo após terminar de escrever esse livro. Quer dizer, o último capítulo ficou incompleto e quem o terminou foi sua filha. Claro que a morte de qualquer pessoa é motivo para tristeza e lamentação, mas olha, pouca gente deixa um legado tão valioso quanto essa jornalista. Então pra mim, talvez seja fácil falar pois meu único vínculo com ela é o de escritora/leitora, fica algo de positivo: tudo que ela produziu em seus anos de jornalista investigativa, o que acabou culminando nesse livro maravilhoso, que nunca vai sair da minha prateleira.

Sue trabalhou por muitos anos na BBC e visitou regiões remotas e inóspitas, foi pra lugares onde repórteres e cinegrafistas não são bem vindos, peitou autoridades, conversou com vítimas e com criminosos. E, em todos esses lugares, ela notou uma coisa: que as mulheres eram constantemente mais prejudicadas. Por isso o título desse livro: war on women. Mulheres do mundo todo estão em guerra, há décadas (talvez séculos), contra a opressão misógina e patriarcal. E cada capítulo desse livro é dedicado a uma batalha. Um tipo de horror vivido por mulheres em determinadas regiões do mundo.

Não é um livro fácil, não no sentido da narrativa (que é maravilhosa, didática e dinâmica), mas no sentido dos socos no estômago que o leitor leva o tempo todo. O livro já começa com um capítulo falando sobre mutilação genital, aí passa para as avós da Praça de Maio em Buenos Aires que buscam seus netos desparecidos durante a ditadura, vai pra Irlanda contar a história das mulheres que trabalhavam como escravas em lavanderias mantidas por conventos católicos, depois muda pra Índia e Arábia Saudita - dois dos piores países para ser mulher hoje em dia -, e pra finalizar dá uma passadinha nos países do leste europeu pra falar de tráfico de mulheres, que são torturadas e obrigadas a se prostituírem para atender... preparem-se: homens em missão de pacificação da ONU.

Como eu falei no Instagram, leiam esse livro. Agora. E da próxima vez que alguém perguntar por que as mulheres feministas são bravas, você terá - infelizmente - muitas respostas.

Read this book. I urge you. And next time someone tells you that women are too angry, or that women shouldn't complain so much because things are better now, you will tell them about the gender war that is going on for decades. Centuries. You will tell them about the women that have their vaginas mutilated in Egypt and Gambia, the women who were forced to work in laundries managed by Catholic nuns in Ireland, the women who were killed in Argentina after their babies were born and the women that are fighting to find those babies. You will tell them about "honour killings" in Jordan and Pakistan and about women who are marginalised in Saudi Arabia because they don't have a male guardian. You will tell them about women that are raped because they "dare" to be in a public space, about young girls forced to marry men old enough to be their fathers and about women in Bosnia that are sex slaves. You will tell them about how women in the UK still earn less than men. Sue Lloyd-Roberts, a woman I aspire to be, left us too soon (shortly after writing this book), but this book and all her investigative films are a great legacy. Thank you, Sue. #heloreads

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Interpretação de texto


Uma das coisas mais chatas da vida de blogueira - e tenho certeza de que todos os coleguinhas vão concordar comigo, não apenas os que escrevem sobre viagem mas também moda, gastronomia, maternidade... qualquer coisa! - é lidar com a (falta de) interpretação de texto.

Como minha amiga Renata disse outro dia, se todo mundo prestasse atenção no que lê e se responsabilizasse pela sua própria sujeira, teríamos um mundo mais avançado. Eu ainda não tenho a solução pra sujeira, mas a interpretação de texto dá pra gente vencer.

Digamos que eu faça uma viagem para Nárnia. Eu provavelmente irei escrever algo assim: "eu fui pra Nárnia no verão, fui de trem. A viagem levou 54 horas de Londres até lá. Paguei 748959 dinheiros. Chegando em Nárnia eu aluguei um camelo e fui pro hotel. O hotel chama-se Nárnia Inn e cobra 779955 dinheiros a diária. O café da manhã não está inlcuso".

Aí é claro, eu vou colocar umas fotos bonitinhas, mais alguns detalhes, deixar o post bem pessoal, didático e dinâmico.

Vocês querem adivinhar o tipo de pergunta que vai aparecer na caixa de comentários?

"Como é Nárnia no inverno?"
"Quando tempo leva a viagem de trem de Londres pra Nárnia?"
"Quanto custa a passagem?"
"Que hotel você recomenda?"
E o melhor comentário, que tem relação com o que eu escrevi há alguns dias: "ai, achei Nárnia tão sem graça. Vai pra Gotham City, muito melhor."

Eu exercito minha paciência todos os dias ao acessar os comentários do Aprendiz de Viajante. O pior é quando a falta de interpretação de texto prejudica meu ganha pão, como por exemplo as vendas do Guia de Londres. Está super claro no texto quando são feitos os despachos e quanto tempo leva e entrega. Então é sempre um soco no estômago receber emails mal educados de pessoas que dão a entender que estou dando o calote porque compraram o guia há 3 dias e ainda não o receberam.

Gente, pra quem quer poucos caracteres, vá para o Twitter.

Los Descalzi


Os meus sogros estiveram aqui por uma semana (definitivamente a semana mais ensolarada e quente do ano até agora), e o Youtuber Martin aproveitou para fazer mais um videozinho das mini-férias. Como eles já nos visitaram outras vezes, foi bem tranquilo, sem aquela ânsia de acordar cedo pra passear e andar como loucos todos os dias. Mas ainda assim aproveitamos os dias "off", e o resumo está aqui:



Ah, detalhe. O vôo deles chegaria às 7:15 da manhã. Reservamos carro para buscá-los e nos programamos pra madrugar, já que o aeroporto de Heathrow é do outro lado da cidade e sempre tem trânsito pra lá. Da última vez que eles vieram nós chegamos atrasados justamente por causa do trânsito e dessa vez não queríamos dar essa bola fora. Poxa, eles afinal viajaram 12 horas, e ainda tem que ficar esperando no aeroporto?

O despertador estava para às 4:30 da manhã. Quando deu 6:30 o Martin acordou no susto. O despertador não tocou (motivo: o espertão tinha colocado para 4:30 da TARDE) e mais uma vez deixamos os sogros esperando, ainda mais tempo do que a vez passada.

Feminismo em uma palavra


Eu não costumo colocar aqui os vídeos dos hangouts que fazemos no Conexão Feminista, senão o blog ficaria monotemática. Mas essa semana colocamos no ar mais um vídeo colaborativo (que é bem diferente dos hangouts, pois conta com participações voluntárias de outras mulheres). Ficou tão bacana e estou tão orgulhosa dele que não dá pra evitar o jabá.

Pedimos para a mulherada definir feminismo em uma palavra (algumas escolheram duas!). O resultado tá aqui:




Transição




Depois que me mudei pra Londres e aprendi na prática o que havia aprendido na aula de Geografia na escola há muitos anos - que na Europa as quatro estações são bem definidas - eu passei a ter uma estação preferida. O outono.

Mas outra coisa que eu amo nesse lance das quatro estações são as transições entre uma e outra. Principalmente a transição entre inverno e primavera, que está acontecendo agora. Eu não odeio o inverno como a maioria dos brasileiros (e até mesmo dos ingleses) que moram aqui, mas acho que essa época a diferença entre um dia e outro é gritante. Podemos ter 5 graus de manhã e 14 a tarde, ou um dia de muita chuva e frio seguido por um de sol, calor e céu azul. Algumas árvores continuam peladas mas outras já florescem, e outras tantas estão com os botões fechados, mas prontinhos para seguir seu ciclo.

É incrível!

Os parques floridos e os preparativos pro verão, e o pensamento focado nas muitas jarras de Pimm's e churrascos nas casas do amigos nos mantém animados. A gente erra feio na roupa (coloca sapatilha quando chove e bota forrada de lã quando faz calor), mas com sorriso no rosto mesmo assim.

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Já fui


A turma do "já fui" só aparece pra comentar naquela sua foto bacana do Instagram justamente pra escrever isso: já fui! Acho incrível como as pessoas tem o dom de transformar um momento de outra pessoa no momento delas. Podem notar: em qualquer foto de viagem de qualquer pessoa é muito mais fácil encontrar comentários do tipo "já fui" ou "amo esse lugar" ou "que saudades" do que coisas como "que foto bonita", "que delícia de férias" ou "que legal que você está gostando".

Não estou dando indireta pra ninguém, até porque tenho certeza de que eu já fiz isso (e me dei conta depois de ler alguns tuítes de uma amiga comentando esse fenômeno). Mas não deixa de ser irritante. Que necessidade louca de deixar claro que a gente já esteve em tal lugar antes daquela pessoa! A gente se apropria de tudo, até mesmo do momento alheio.

Tem gente que nunca aparece, mas basta eu colocar uma foto de um lugar pelo qual essa pessoa já passou, que lá vem o "já fui".

Resolvi tirar um sarro desses comentários bizarros e fiz um vídeo com o Rafa Maciel, um Youtuber profissa e um querido que mora aqui em Londres. Se você se reconheceu em alguma dessas situações, não tema: quem nunca, não é mesmo?

Eastbourne


Fomos pela primeira vez para Eastbourne há alguns anos e desde então, principalmente depois que o Martin tirou habilitação para dirigir por aqui, voltamos lá para mostrar um dos nossos lugares preferidos na Inglaterra para amigos e familiares.

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Apesar de Eastbourne ser bonitinha - e estar perto do mar, mesmo em um dia feio ou frio pra mim é sempre revigorante - nosso "lugar" é Beachy Head. Um penhasco de cal em uma das pontas das cidades, com uma vista incrível do mar e da cidade. E o melhor: um pub muito, muito lindo.

Já estivemos lá em dia de sol, em dia de vento, em dia gelado. E dessa vez em dia de neblina. Muita neblina! Mal dava para ver o penhasco, muito menos o mar. Então resolvemos esperar no pub e daqui a pouco... tudo aberto! Um dia lindo de sol, e mais uma vez eu me surpreendi com a paisagem, apesar de já conhecê-la tão bem.

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No Starbucks


Hoje eu estava no Starbucks esperando meu café ficar pronto quando um senhor me abordou, disse que era morador de rua, e perguntou se eu tinha algum dinheiro pra dar pra ele. Eu não tinha nenhum dinheiro, mas eu tinha uns morangos na bolsa e perguntei se ele queria. Ele aceitou, e começou a me falar que precisava se cuidar porque tinha diabetes, e ele tinha medido pela manhã e não estava muito bom. Falou que o pessoal do Starbucks deu um café e ele esperava se sentir melhor, porque estava um pouco tonto. Ficamos conversando um pouco ali, ele se despediu e foi falar com outras pessoas.

Eu peguei meu café e segui meu caminho de casa. Hoje foi um dia intenso de passeios pela cidade, pois os meus sogros estão por aqui. O Martin tirou férias e estamos aproveitando todos juntos. Mas foi esse senhor que marcou meu dia.