Leitura: O Segundo Sexo (Extratos), Simone de Beauvoir


O Segundo Sexo é talvez a obra literária feminista mais importante do século 20, e quem começa a se interessar por feminismo e se engajar com campanhas e movimentos mais hora menos hora vai se deparar com alguma referência ao livro ou uma citação de Simone de Beauvoir ("Não se nasce mulher, torna-se", talvez a mais conhecida).

Recentemente eu encontrei esse livro, com alguns extratos do Segundo Sexo (três capítulo pra ser mais precisa) e achei que seria uma boa para o meu primeiro contato formal com Simone. É uma leitura difícil pra caramba (vocabulário complexo, sentenças muito longas, citações de outros autores e teorias filosóficas), mas de repente, no meio disso tudo, "aparecem" frases que conversam muito com coisas que a gente vive hoje. Tipo essa: "o mais medíocre dos homens acredita que é um semi deus diante de qualquer mulher" ou essa: "enquanto a mulher tiver que lutar para ser reconhecida como ser humano, ela não conseguirá ser capaz de criar".

Quem sabe um dia eu leio O Segundo Sexo inteiro, mas por enquanto continuo a digerir o tanto que já aprendi lendo esses extratos.

Ano novo na London Eye (vídeo)

Esse foi o nosso nono réveillon em Londres, e a primeira vez que fomos ver os fogos da London Eye de pertinho. Há alguns anos fizemos o passeio de barco, que foi bem abaixo das expectativas (contei aqui), mas a experiência de estar bem em frente a London Eye é inesquecível. Farei de novo com certeza! Tem um post no Aprendiz de Viajante explicando direitinho como faz para comprar os ingressos e outro post falando de mais opções para passar o réveillon em Londres.

Escape Room


No fim do ano passado, como parte de um dia de comemorações com um grupo de amigas amadas, fui pela primeira vez em um "escape room" (há uma tradução decente para esse termo? como se chama esse tipo de jogo no Brasil?). Bom, pra quem nunca ouviu falar de uma escape room, trata-se de um desafio que deve ser resolvido em grupo. O nosso, por exemplo, era escapar da prisão.

Você é colocado em uma sala e tem um problema pra resolver. A sala tem todas as dicas e ferramentas, mas claro que não é óbvio, e uma vez que você resolve um problema, aparece outro. E há toda uma ordem: você acha uma chave que tem um número que é a senha pra abrir um cadeado que dá acesso a um armário que tem um código numérico que... ah, entenderam né? E acrescente aí a questão do tempo, já que você não tem o dia inteiro pra resolver (leia-se: há outros grupos esperando com hora marcada).

Eu não achava que ia gostar tanto dessa brincadeira. Foi muito divertido, e adorei a adrenalina. Fico pensando nas pessoas que montam esses desafios, porque a coisa toda é muito bem pensada. São dezenas de detalhes, de rabiscos nas paredes a botões estrategicamente espalhados pelas salas e códigos que precisam ser decifrados a partir de outras pistas deixadas. A gente usou o tempo máximo (tem quem resolva tudo com vários minutos de antecedência, o que me deixa intrigada) e também precisamos pegar umas dicas, principalmente no final quando você percebe que faltam poucos minutos e vai batendo um pânico, a solução não aparece.

Existem diversos escape rooms aqui em Londres e não vejo a hora de fazer de novo. Além de ser ótimo entretenimento é também uma maneira de exercitar os neurônios ; )

(em tempo: nós fomos no Omescape e fizemos o desafio The Penitentiary, que foi o único que achamos que dava pra fazer em sete pessoas)


Continuamos correndo


Nesse domingo que passou a gente participou de mais uma prova de 10k, dessa vez no parque aqui do lado de casa. Participar dessas provas é sempre bom, dá uma motivação que em treino nenhum a gente consegue. Engraçado que, apesar de a gente se inscrever nesses eventos mais como um estímulo pra nós mesmos, chega na hora bate aquela competitividade.

Foi uma corrida legal, porque foi pequena, tinham aproximadamente 150 competidores (a menor que a gente já participou). E desses 150, apenas 2 pessoas estavam participando de uma prova de 10k pela primeira vez. Essa série de 10k que acontece em diversos parques da cidade durante o ano inteiro, que se chama "The Race Organiser", tem essa característica: provas ondes corredores experientes participam para treinar e melhorar seus tempos.

Ou seja: nós, amadores que somos, sempre ficamos na turma do fundão : )

Eu achei que não conseguiríamos terminar abaixo de uma hora (seria a primeira vez desde que conseguimos fazer isso pela primeira vez em uma prova de fevereiro do ano passado), porque o parque é cheio de ladeiras e eu ainda por cima estava saindo de uma gripe. Mas conseguimos! Passamos na linha de chegada aos 59 minutos e 42 segundos.

E o mais importante: pela primeira vez saímos com uma cara decente em uma das fotos oficiais.


Novos guias de passeios bate e volta


Em agosto de 2016 eu publiquei o primeiro guia da série de passeios bate e volta a partir de Londres, sobre Oxford e Cambridge. E antes do ano virar mais dois foram publicados (eu que esqueci de avisar aqui antes, mas o lançamento foi pro ar lá no Aprendiz de Viajante): um sobre Bath e outro sobre Windsor e Hampton Court.

Já falei várias vezes que Bath é minha cidade preferida na Inglaterra (e também uma das minhas preferidas no mundo, não que eu conheça tantas assim), e eu moraria lá facilmente. Por isso optei por dedicar um guia todinho só pra ela. Já Windsor e Hampton Court estão em um guia só porque tratam-se de lugares com conexão com a realeza: o Castelo de Windsor, que ainda é uma das residências oficiais da monarquia; e o Palácio de Hampton Court, por onde já passaram diversos reis e rainhas, como Henrique VIII.

A ideia é continuar adicionando destinos a essa série de guias. Todos estão disponíveis em formato ebook, e aqui no blog tem uma aba dedicada para eles (clique em Guias de Viagem aí em cima, e então você verá uma listinha, clique na ultima opção: Série Bate e Volta de Londres). Cada ebook custa R$9,90.




Exposição: Emma Hamilton, Seduction & Celebrity


Começamos o ano bem, indo em uma exposição! Os museus aqui em Londres abrem normalmente dia 1 de janeiro, então aproveitamos para ver essa exposição no National Maritime Museum, que fica bem perto de casa.

Você provavelmente nunca ouviu falar da Emma Hamilton. Talvez, se você realmente gosta de história (principalmente sobre guerras e batalhas), tenha ouvido falar dela como a amante do Lord Nelson. Infelizmente, como aconteceu com tantas mulheres na história, todos os sucessos e realizações da Emma Hamilton acabaram esquecidos. Depois da morte de Nelson, ela foi desmoralizada e acabou morrendo 10 anos mais tarde, pobre e abandonada pelos amigos.

Mas muito antes do Lord Nelson entrar na vida de Emma, ela já havia construído seu legado. Nasceu muito pobre e foi para Londres com 12 anos para trabalhar como serviçal (DowntonAbbey feelings, pra quem assistiu). E, como acontecia com a maioria das meninas pobres e sozinhas nessa época, ela também foi prostituída. Por causa de sua beleza, acabou virando "protegida" de alguns aristocratas.

Um deles a mandou para Nápoles, para viver com o seu tio (ela achava que ele viria depois e eles ficariam juntos, mas foi enganada). Desiludida, ela viu na vida em Nápoles uma oportunidade para aprender e refazer sua vida. Ficou fluente em italiano e francês e aperfeiçoou seus talentos como atriz, passando a realizar apresentações e desenvolvendo seu próprio estilo de performance, chamado "Attitudes". Ficou conhecida em toda Europa, foi retratada por vários artistas, e acabou se casando com o homem que a protegeu em Nápoles.

Ficou amiga da família real da Sicília e intermediou negociações e planos para proteger a monarquia dos ataques de Napoleão. Foi nessa época que conheceu Nelson e os dois começaram uma relação.

Depois de 14 anos em Nápoles, voltou para Londres (junto com o marido e Nelson, imagina a situação os três viajando juntos). O marido dela morreu logo depois, e Nelson deixou a esposa para viver com Emma. Viviam bem, mas passavam muito tempo separados, já que ele estava no mar comandando batalhas. Como a relação deles não era oficial (mas era pública, não escondiam de ninguém), ela começou a perder influência e o status adquirido durante seus anos em Nápoles.

Nelson morreu na Batalha de Trafalgar e a partir daí a vida dela passa a ser um inferno. Tem problemas financeiros, e inclusive chega a ser presa. Todas as suas conquistas são "apagadas" da história, ela passa a ser conhecida nos livros como a amante de Nelson. Ainda mais por ele ter se tornado um mártir, ela não passa de uma sombra na vida dele.

É um fim triste para um mulher extraordinária. O que escrevi aqui é um resumo, a exposição é imensa e detalhada. Fica até abril, recomendo pra quem estiver Londres!

Leitura: Carnival, Rawi Hage


Eu não lembro quem tinha me falado ou onde eu li que esse livro era muito bom. Foi o primeiro que li desse autor, e pra mim não rolou. Assim, ruim não é. Tem várias passagens boas, inclusive muitas naquele estilo "vida real transformada em ficção" que eu adoro, mas no greal achei meio sem pé nem cabeça.

O começo é arrastado, aí o meio é bem interessante, aí no fim acontece um monte de coisas tudo ao mesmo tempo agora e termina conceitualmente. ODEIO finais conceituais. #meujeitinho

Olha, quanto mais eu leio livros de não ficção, mais dificuldade eu tenho de achar uma ficção que eu realmente ame. Aliás, há uns meses eu resolvi dar uma olhada em todos os de ficção que eu comprei há um tempão e ainda não haviam sido lidos, e acabei colocando vários na pilha de doação. Preciso ser mais seletiva na hora de comprar livros.

Ah, criei uma hashtag no Instagram para marcar todos os livros que leio (comecei a postar sempre lá, assim que termino), pra quem tiver curiosidade é só procurar #heloreads



Montanha Russa


Hoje eu fui numa montanha russa! Eu não lembro qual havia sido minha última vez em uma montanha russa. Certamente há mais de oito anos, que é o tempo que moro em Londres. Enfim, não foi uma montanha russa super ultra mega radical, mas foi emocionante pra mim. E o melhor é que fui com duas das minhas melhores amigas e a gente riu muito. Muito mesmo!

Eu não sou a melhor companhia para ir a um parque de diversões. Fico enjoada fácil, tenho medo (não de altura, tenho um medo mais louco mesmo, de morrer em algum desses brinquedos porque a trava de segurança falhou ou algo assim), e mal abro os olhos quando estou no brinquedo. Mas acredite se quiser, eu era pior quando mais nova.

Lembro que uma vez, acho que eu tinha uns sete anos, meu pai levou eu e minha irmã no Playcenter. Aí nós duas resolvemos ir no tobogã (quer dizer, ela deve ter resolvido e eu fui junto, porque teve uma época na nossa infância que eu era maria vai com as outras em relação a minha irmã). Chegando lá em cima, depois de subirmos as escadas, minha irmã desistiu. Ficou com medo. Eu, é claro, desisti também. Ir sozinha? Nem a pau! Descemos as escadas, morrendo de vergonha, contra o fluxo da galera subindo. Chegamos lá embaixo e meu pai não escondeu sua decepção. Ele resolveu que a gente deveria ir, e foi junto. Subimos as escadas de novo e fomos os três.

Olha só gente, tive um insight agora, Freud ficaria orgulhoso: a gente costuma culpar nossos pais pelos nossos medos e problemas mais profundos, mas podemos também culpar as irmãs e irmãos mais velhos. Taí, resolvi que meu cagaço com brinquedos de parques de diversões é culpa da minha irmã. Ha!

Ok, foco. Sobre a montanha russa hoje. Parece uma bobagem né, mas fiquei o dia todo pensando nisso. Eu fui em uma montanha russa! Deu tudo certo! Eu curti! Fiquei com medinho, mas curti. poxa, que bom fazer algo assim, tão atípico pra mim, antes de fechar esse ano tão esquisito.

Obrigada minhas amigas amadas, Marina e Quézia, por gritarem também!

(esse é o vídeo da Montanha Russa que a gente foi, não fui eu que filmei)

Foco


Eu tenho alguns planos pra 2017. Mas são planos grandes, que precisam de investimento de tempo/trabalho e/ou dinheiro (portanto, altas chances de darem errado), então deixarei para contar aqui a medida que eles forem saindo do papel.

Dei uma olhadinha no que escrevi aqui há mais ou menos um ano, sobre meus planos pra 2016. Eram 5 metas bem específicas: correr uma meia maratona, terminar de escrever um livro, fazer algum curso, fazer trabalho voluntário e pedir mais. Infelizmente não fiz nenhum curso, por pura falta de organização mesmo. 

Uma coisa muito boa que aconteceu em 2016: amizades novas. Saí da minha zona de conforto e fiquei um pouco menos anti social. O blog mais uma vez foi essencial (acho que todas as minhas amizades londrinas são decorrentes do blog, direta ou indiretamente), e preciso sempre me lembrar disso quando penso em parar. 

Preciso um pouco mais de foco em 2017. Entrei aqui pra escrever um post pra falar mal de algo que vi no Facebook e acabou nisso. 

A maior conquista de 2016


Meia maratona? Trabalho voluntário? Viagens? Projetos do blog? Ativismo?

Que nada. A maior conquista de 2016 aqui nessa casa foi o conserto do vazamento no banheiro. Depois de 4 anos, 2 encanadores que nos cobraram e não consertaram nada e 2 pisos arrancados, foi uma encanadora que nos ajudou a solucionar o problema. Nos aconselhou a trocar o box e fazer uma vedação decente. Falou que ela poderia fazer o serviço, mas que achava que nós mesmos seríamos capazes de fazer e assim economizaríamos um bom dinheiro.

Vazamento consertado, piso novo instalado (também feito "in house" após um orçamento assustador de £500). Quem sabe em 2017 a gente consegue fazer a função secadora da máquina de lavar roupa funcionar novamente?

Crônica: o dia que eu achei que estava milionária


Eu sei que é de certa forma redundante chamar esse post de crônica. Afinal esse é um blog pessoal, tudo que escrevo aqui é relacionado a minha vida. Mas eu sempre escrevo sobre o "agora", seja um livro lido, um show que eu fui ou algum trabalho que estou fazendo. Então, há alguns dias, durante uma corrida (minha cabeça vai muito longe durante as corridas, eu já cheguei a imaginar coisas que me deixaram com um nó na garganta de emoção, juro), eu lembrei dessa história, do dia que eu achei que tinha ficado milionária. É uma história que adoro contar, e adoro relembrar com o meu pai (segue lendo e você vai entender porque), então nada mais justo do que compartilhar aqui. Tenho tentado lembrar desses "causos" engraçados, e acho que é uma maneira de dar uma atualizada no blog de vez em quando. Então vamos a ele, o dia que achei que estava milionária. 

Em 2003 eu comecei a trabalhar em uma empresa no município de Diadema, em São Paulo, como desenhista projetista. Era uma fábrica de divisórias e móveis de escritório. Pela segunda vez na minha recente trajetória profissional eu estava empregada em Diadema, e pela segunda vez em uma fábrica. Só quem já trabalhou em fábrica sabe como esse é um ambiente peculiar. Conservador, machista, cheio das regras.

Por exemplo, às 9 da manhã, todo dia, uma sirene indicava a pausa do café. E até às 9:15 todo o pessoal - tanto quem trabalhava na fábrica em si como a turma do escritório - tomava seu café e comia um pão com manteiga gentilmente cedido pela empresa. Um por pessoa apenas. Se por acaso alguém faltasse aquele dia, o pão com manteiga poderia ser repassado. A sirene tocava novamente no começo e no fim do horário do almoço e também no fim do expediente.

Como vocês podem imaginar, quase não havia mulheres trabalhando nessa empresa. No escritório, acho que éramos em 4 ou 5. O lado bom é que o banheiro estava sempre vazio. O lado ruim é que um dia uma delas me perguntou "você está menstruada? Porque tem alguém jogando absorvente usado aberto no lixo."

A parte do escritório, onde eu trabalhava, tinha o típico layout de um escritório de fábrica. De um lado do corredor as salas dos chefes. Do outro lado, os departamentos. Eram três chefes: o Sr. Ogro, responsável pela fábrica; o Sr. Coxinha, responsável pelo financeiro, e o Sr. Riquinho, responsável pelo comercial.

Eu não gostava, mas também não odiava. Ficava mais na internet lendo blogs do que efetivamente no autocad fazendo desenhos de móveis de escritório. Meus colegas eram simpáticos, e poxa, tinha o pão com manteiga. Um desses colegas, que inclusive trabalhava na mesma sala que eu (era a sala dos orçamentos, e eu não sei porque diabos eu ficava lá, já que havia a sala dos desenhistas, logo ao lado), era viciado em duas coisas: doces e loteria.

Todo dia, depois de almoçar, ele caminhava até o centro comercial ali perto para refazer seu estoque de paçocas e afins, e também para jogar em alguma coisa. Se não tinha nada, ele comprava raspadinha. Volta e meia ele fazia um terno, ou uma quadra. Então, ninguém melhor do que ele pra organizar o bolão do escritório. Era a mega sena acumular, que a gente fazia bolão. Vocês sabem né? Não dá pra ficar fora de bolão da firma. O dia que você resolver não participar, é o dia que eles vão ganhar. Imagina eu, ter que aturar o Ogro, o Coxinha e o Riquinho ao ficarem sabendo que todo mundo havia se demitido porque ganharam a mega sena?

Eu ia até trabalhar animada no dia seguinte do sorteio. Chegava até mais cedo, pra saber se a gente tinha feito pelo menos a quina. Um dia, assim que eu cheguei, o administrador do bolão me falou: "Helô, você está sabendo que saiu pra um ganhador em Santa Catarina? Já falou com os seus pais?"

Meu coração parou um segundo. Sentei na minha mesa e liguei pro escritório do meu pai em Joinville (ele ainda não havia se aposentado). Quando pergunto por ele, a recepcionista me fala que ele não estava. Ligo em casa. Ninguém atende. Ligo no celular do meu pai (minha mãe não tinha celular nessa época), nada.

Então eu comecei a achar que estava milionária. Mas em vez de ficar feliz eu comecei a ficar com muita raiva. Como assim meu pai não tinha me avisado? Tinha feito eu acordar cedo e ir até Diadema trabalhar? Só podia ser brincadeira. Ele e minha mãe provavelmente estavam a caminho de São Paulo (de primeira classe, claro, ou em um jatinho particular) pra me dar a boa nova ao vivo. Onde será que a gente iria jantar aquela noite? O que eu ia falar pras amigas? Pega mal sumir?

Continuei insistindo no celular do meu pai. A essa altura eu já estava imaginando o que faria com a minha parte do prêmio. Tantos, tantos planos! Que maravilha ser milionária!

Finalmente, depois de tantas tentativas, meu pai atende o celular. Ele parou no acostamento da estrada, pois estava a caminho de Lages para visitar um cliente, e ficou preocupado com as minhas ligações, uma atrás da outra. Era por isso que ele não estava escritório (eu infelizmente não lembro porque minha mãe não estava em casa).

Meu pai chorava de rir. Não filha, não fomos nós. Não estamos milionários, mas essa história é boa.

Leitura: Feminist Fight Club, Jessica Bennett


Há alguns anos, um grupo de amigas e conhecidas que estavam tentando engatar suas vidas profissionais em Nova York começaram a se encontrar para trocarem experiências e desbafarem sobre as frustrações da vida corporativa. Jornalistas, produtoras de televisão, roteiristas, designers (a turma de humanas, no geral!) começaram a notar, durante esses encontros, que parte da dificuldade em progredir a carreira era proveniente de uma coisa que todas tinham em comum: serem mulheres.

As histórias e aprendizados do grupo deram origem ao livro Feminist Fight Club, focado em machismo no trabalho: comportamentos (dos machistas e das mulheres) e como combatê-los, fatos e estatísticas (como diferenças salariais) e muito, muito bom humor. É um livro didático e divertido, coisa difícil de conseguir.

Recomendo muito pra quem quer começar a ler livros feministas e não sabe por onde, acho que esse é um bom ponto de partida. O meu já está emprestado e espero que passe pelas mãos de muitas mulheres!

The Cure


Um dos meus objetivos pra 2017 é ficar mais esperta com o calendário de shows aqui em Londres. Tem muuuuuita coisa boa rolando sempre, mas isso acaba sendo um problema: é difícil acompanhar, e quando você descobre que vai ter show de um artista que você gosta, pode ser tarde demais (ou seja: impossível conseguir ingressos. Os que tem são de sites de revenda que cobram cinco vezes o valor original).

Mas eu adoro ir em shows. Não sou de balada, nunca fui, mas show é diferente. Escutar ao vivo aquelas músicas que a gente ouve sem parar desde sempre então? Ah, viagem no tempo, na certa!

Eu dei sorte de ficar sabendo do show do The Cure há tempo, mas o ingresso foi em site de revenda mesmo. Saiu caro, mas é The Cure né? Comprei mesmo assim. E olha, teria pago ainda mais, porque foi muito, muito bom. Um show de três horas. Pouco falatório, zero enchição de linguiça. Só todas aquelas músicas maravilhosas, uma atrás da outra.




Eu amo show que tem gente mais velha que eu. Show que tem fãs com camisetas da banda ou cabelos arrumados como o do vocalista. Show que tem mães e pais com seus filhos. Você pode achar o que quiser das bandas dos anos 80 e 90, mas uma coisa não dá pra negar: mesmo quem nasceu muito depois das músicas estourarem sabe as letras de cor.



Robert Smith e cia: foi muito bom!

1 ano, site, bloqueio


Semana passada, dia 25/11, eu e a Renata comemoramos 1 ano de Conexão Feminista. Quando a gente fez o primeiro hangout, dia 25/11/2015, a ideia era ter esses encontros online a cada 15 dias. Ou seja, teríamos uns 25 ou 26 no fim do primeiro do ano.

Só que a gente dobrou a meta! Já temos mais de 50 vídeos no canal (em sua maioria os hangouts, mas também alguns vídeos colaborativos e outros de notícias) e o Conexão acabou se tornando algo muito maior na minha vida. Não apenas na questão do tempo dedicado (algumas horas todos os dias lendo artigos, fazendo posts no facebook, organizando hangouts com convidadas, estudando para hangouts, etc etc etc) mas também como algo que me traz imensa satisfação. Por causa desse projeto eu já fiz novas amigas (virtuais e "reais", aqui em Londres mesmo), passei a frequentar palestras e atividades feministas e cada vez mais entendo o poder e a importância do ativismo.

Eu e a Rê temos um monte de ideias pro Conexão, mas como também temos um monte de contas pra pagar, precisamos ser realistas e caminharmos de acordo. Mas uma coisa já fizemos: um site (o qual foi construído pelo Leo Melo, com toda paciência do mundo)! O site foi pro ar no mesmo dia do aniversário, e concentra todos os canais de comunicação.

Outro presentinho que ganhamos de aniversário foi a inimizade do Facebook. Por termos publicado a foto de um mamilo na página, como parte da campanha #mamilolivre, o Facebook nos tirou do ar por algumas horas. Alguns dias depois recebemos um email com um pedido de desculpas do próprio, falando que a imagem havia sido removida por engano e seria devolvida pra página. Vitória? Não. Pra nossa surpresa, passado uma semana, alguém denunciou a foto de novo, e dessa vez o Facebook resolveu me bloquear por 24 horas.

Enfim, lições que vamos aprendendo quando resolvemos lutar por uma causa. Aviso aos perseguidores de mamilos: vocês vão cansar de "denunciar" a gente, porque a gente não vai cansar de postar mamilos.


2016


Sempre quando alguem começava a reclamar que o ano deveria terminar logo, eu pensava: "mas que diferença vai fazer o ano? Dia 1 da janeiro não é mágico". Sim, eu sou dessas pessoas bem chatas que esmaga os sonhos otimistas dos outros.

Mas esse ano eu estou mordendo a língua e entrando no coro daqueles que já não aguentam mais 2016. Nunca antes eu tive tanta certeza de que uma virada de ano será tão bem vinda como essa. Pode mesmo não ser mágica, mas tem sim um significado. Só a sensação de que estamos deixando coisa ruim para trás pode ser positivo.

É claro que o ano teve um monte de coisas boas, ainda mais quando pensamos indivualmente. Quando cavucamos nossas vidas vamos encontrando um monte de momentos bacanas na rotina que as vezes a gente despreza tanto.

Hoje por exemplo eu já tomei dois cafés com leite e agradeci mais uma doação feita para a campanha de financiamento coletivo da LAWA (aliás, nós batemos a meta mínima!). E recebi umas ilustrações lindas da minha amiga Marília, para um projeto de guia que estou desenvolvendo (e andava meio parado).

E assim vamos. Pense aí nas coisas boas que aconteceram com você hoje.

Leitura: Got Set a Watchman,Harper Lee


Na teoria, esse livro é a continuação do clássico americano "To Kill a Mockingbird", que realmente é um dos livros mais fantásticos que eu já li. Mas ele foi escrito antes de To Kill a Mockinbird, como uma espécie de rascunho.

Não sei como foi no Brasil quando essa continuação foi lançada, mas aqui em Londres o povo foi a loucura (imagino que nos Estados Unidos tambem): fizeram filas em portas de livrarias, no maior estilo "lançamento Harry Potter".

*****Alerta de spoiler*****

Bom, deixa eu ser bem curta e grossa: detestei Go Set a Watchman. Acho que do meio pra frente continuei lendo só pra ter certeza de que não estava enganada. Não, não entendi errado, e nem termina em "tudo foi um mal entendido, imagina, ninguém é racista". Enfim, um forte soco no estômago.

E quando eu achava que podia melhorar - na parte que Jean Louise pega suas coisas e entra no carro para ir embora - seu tio aparece em dá um tapa na cara dela, e ela então decide aceitar seu entorno racista.

Pensando bem, talvez essa leitura tenha caído em boa hora, como uma espécie de preparação para o que está por vir na era Trump.

Melhor esquecer esse e pensar que To Kill a Mockingbird não teve continuação #harperlee #gosetawatchman

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Lawa - Latin American Women's Aid


Uma das minhas metas esse ano era fazer trabalho voluntário. A princípio eu queria procurar uma posição em um museu, galeria ou qualquer instituição ligadas as artes, mas com a evolução do meu trabalho com a Renata no Conexão Feminista, começou a fazer mais sentido buscar uma organização que ajudasse mulheres. E justamente por causa do Conexão eu conheci algumas mulheres brasileiras incríveis aqui em Londres, como a Amanda. E a Amanda me indicou a LAWA, onde ela já prestava trabalho voluntário.



Entrei em contato com elas e tudo deu certo. Comecei como voluntária de mídias sociais no final de agosto. Toda semana estou lá algumas manhãs, e pra ser honesta eu acho mais é que elas estão me ajudando do que eu ajudando elas.

E o que essa instituição faz? A LAWA presta apoio e abrigo para mulheres (lartionoamericanas e de minoria étnica) vítimas de violência doméstica. Além disso, há também uma série de outros serviços: aulas de inglês, consultas com advogados (sobre imigração, direito de familia), ajuda para fazer currículo, festas temáticas, palestras sobre feminismo. Isso de tudo DE GRAÇA. Ou seja, é preciso muito trabalho para garantir financiamentos privados e públicos. E isso é difícil pra caramba.

Para aumentar o leque de opções de financiamento, estamos começando uma parceria com uma plataforma de financiamento coletivo, chamada Global Giving. Essa plataforma é usada apenas por ONGs, do mundo todo. Mas para ser um parceiro fixo é preciso obter sucesso em uma "campanha teste". E essa campanha que eu estou coordenando no momento. Então preciso da ajuda de vocês!

Para essa campanha teste, desenvolvemos o projeto "Make a Shelter a Home for Latin American Children" (Faça de um abrigo um lar para crianças latinoamericanas). O objetivo é arrecadar £5,000 para melhorar a infraestrutura do abrigo para as crianças que chegam lá junto com as suas mães. Elas geralmente chegam sem nada, pois a fuga de casa é feita as pressas e em sigilo. Então queremos que elas tenham o mínimo de conforto para conseguirem superar o trauma vivido em casa e também o trauma dessa situação temporária.

Então essa campanha tem dois objetivos. O mais importante, claro, é melhorar o abrigo. E para isso colocamos a meta de £5,000. Mas, se chegarmos a £2,500, doados de 50 pessoas diferentes, já seremos aceitas como parceiras do Global Giving.

É possível doar de qualquer lugar do mundo, pois a plataforma aceita cartão de crédito internacional e também Paypal. O valor mínimo é £8, cerca de R$30.00. Temos até 19 de dezembro para conseguirmos isso. Conto com a doação de vocês!

Em tempos de governantes racistas, xenófobos e misóginos (e de cortes no orçamento público para ajudar pessoas em situação vulnerável) é muito importante que a gente faça mais do que declarar nossas frustrações. É preciso realmente fazer alguma coisa, e ajudar instituições que prezam pela vida das minorias é uma delas.

Então, é só clicar aqui para ir na página da campanha. Conto com vocês. Conto especialmente com a pessoa que deixou o comentário anônimo no post anterior, que preferiu não se identificar mas tentou fazer "shaming" (já tem uma palavra boa em português para esse tipo de atitude?) do meu estilo de vida, diminuindo minha militância feminista por que sou "blogueira sustentada pelo marido".

A não viagem


Ano passado eu fui pela primeira vez no Encontro Europeu de Blogueiros Brasileiros, que aconteceu no Porto (eu inclusive fui uma das palestrantes, contei sobre meu aprendizado com a publicação do Guia de Londres). Foi tão legal, mas tão legal, que lá mesmo eu já tive certeza de que iria no próximo, que aconteceria em Berlim.

A passagem foi comprada há meses, o hotel estava reservado, estava tudo pronto. A única coisa que não ficou pronta foi meu passaporte (que está no Departamente de Imigração do Reino Unido, o famoso Home Office, para renovação do visto do Martin). Eu tinha esperanças de ele ser devolvido a tempo da viagem, e todo dia chequei a caixa de correio pelo menos duas vezes por dia.

Então não fui. Sabem aquela sensação de ser a única pessoa a não ter sido convidada para a festa de 15 anos da pessoa mais popular da escola? Eu sei, eu sei que essa é a comparação mais classe média paulistana que eu poderia ter feito, mas é exatamente assim que me senti esse final de semana.

Mas como tudo pode ter um lado bom, esse fim de semana eu também comi brigadeiros, passei horas com as minhas amigas e comprei azulejos novos para o banheiro.

E que venha o encontro de 2016!

Só a Maya salva


Um pouco de Maya Angelou para lidar com mais um balde de água frio político desse tenebroso 2016 que ainda não acabou.

"You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may tread me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise...

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise." -- Maya Angelou

(se alguém tiver uma boa tradução por favor me mande, que eu coloco aqui)


Ninguém avisa


Lembro muito bem uma coisa que o meu pai falou há muitos e muitos anos, quando eu me dei conta de que havia feito uma escolha errada (acho que era relacionado a trabalho) e teria que - talvez pela primeira vez de muitas que viriam depois - dar uns passos pra trás pra recuperar aquele tempo que a escolha errada havia tomado da minha vida. Ele disse que não adianta dar conselho, que a gente descobre o erro depois que ele já está feito. E a vida segue.

Eu tenho a impressão que esse ano eu fiz algumas escolhas erradas. Ou melhor (pior), uma escolha errada levou a outra. Nada grave, mas o peso da ficha caindo sempre acaba sendo enorme, já que reconhecer erro é muito, muito difícil. As vezes me pergunto, será que ninguém pensou que meus planos não estavam muito bem estruturados e quis me avisar? Bom, se alguém pensou, ia falar o que né? "Hummm... sei não. Melhor você não fazer isso".

Mas aí entra aquele clichê, o maior entre todos os clichês, que pelo menos a gente aprende com os erros. Pena que isso não dá pra colocar no currículo!

"Heloisa Righetto, 36 anos, costuma questionar sua carreira de 3 em 3 anos, mas aprende muito com isso"