Leitura: Dear Ijeawele, Chimamanda Ngozi Adichie


Faz pouco tempo que li o Americanah, dessa mesma autora. Mas a primeira vez que li Chimamanda foi o manifesto "Sejamos Todos Feministas". E esse é o segundo manifesto feminista publicado por ela, que eu adquiri junto com o ingresso da palestra dela que rolou por aqui há pouco tempo (e foi sensacional).

Mais uma vez, é um livro curto e muito didático. Em português o título foi traduzido para "Para Educar Crianças Feministas", mas eu acho que essa tradução meio que faz um desserviço. Afinal, quem não tem filhos ou quem tem filhos já adultos pode sentir que esse livro não é para eles. Mas é sim, é pra todo mundo. Eu acho que ele funciona como uma continuação do "Sejamos Todos Feministas", o qual é de certa forma uma introdução ao feminismo. Já o "Dear Ijeawele" desenrola melhor alguns tópicos e nos mostra como podemos aplicar o feminismo no nosso dia a dia (atenção, atenção! Hora do jabá! Já rolou vídeo colaborativo sobre esse tema, assiste aí, vai!!).

O livro tem esse nome porque originou de uma carta que a Chimamanda recebeu de uma amiga, pedindo conselhos para criar sua filha como feminista. E a resposta de Chimamanda foi feita em 15 sugestões. E são essas 15 sugestões que encontramos no livro.

Ontem eu fiz uma tatuagem


Há um tempo eu meio que tinha decidido que não faria mais nenhuma tatuagem. Eu digo "meio que" porque, né, eu fiz mais uma. Uns anos atrás eu até tinha vontade de completar metade do meu braço esquerdo, onde estão duas grandes tatuagens, mas não conseguia pensar em nenhum tema que me agradasse. E quando eu decidi todas as minhas tatuagens, eu estava muito apaixonada pela ideia, eu queria muito, e fazia tempo que eu não sentia essa mega vontade de estampar algo no meu corpo.

Quem tem tatuagem sabe do que eu estou falando. Tenho tantos amigos e conhecidos que me falam que querem fazer, mas não tem coragem ou não sabem o que. Pra mim, quando você quer mesmo, você sabe. A coragem aparece. Até eu, a mais cagona da vida que passa mal vendo seriado de hospital na televisão, passa por uma tatuagem.

E aí foi assim. Um belo dia eu pensei que poderia mostrar o meu envolvimento com o feminismo de forma mais óbvia. E aí de novo, a coragem e a vontade apareceram. Esperei uns meses antes de procurar uma tatuadora (tinha que ser mulher, eu sempre fui tatuada por homens, e não havia me dado conta disso até pensar nessa nova tatuagem), pra ter certeza de que queria mesmo. O tempo passou, a vontade aumentou. Eu achei uma tatuadora pelo Instagram que topou usar as minhas referências e criar algo exclusivo pra mim (montei um board no Pinterest com algumas imagens e mandei pra ela, pra quem tiver curiosidade, aqui está), a Hannah Willison (aliás, ela usa tintas veganas, pra quem possa interessar).

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Trocamos alguns emails, marcamos a data, paguei o depósito, ela me mandou o desenho e eu me apaixonei. Não esperava algo tão legal, e realmente mostra como ela é boa. Ela entendeu direitinho o que eu queria a partir do que mandei pra ela, e criou algo infinitamente melhor. Tem sempre quem me pergunta se não é muito caro. Sim, é caro, bem caro. Mas é algo que vai ficar comigo a vida toda, algo que tem que ser muito bem feito. Se for barato, desconfie. Fora que o trabalho físico do tatuador tem que valer muito mesmo, eles ficam em umas posições desconfortáveis, mega concentrados, com uma agulha na mão por horas a fio. Todos devem ter a coluna estragada e artrite no braço e ombro!

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Então está aí, minha mais nova tatuagem. Sempre me perguntam os significados das minhas tatuagens e a maioria não tem grandes motivos, eram apenas desenhos que eu gostava (gosto) e queria fazer. Tenho uma frase no pé que sim, tem significado, e obviamente o nomezinho do Martin no meu pulso esquerdo (que sim, foi um impulso e um perigo absurdo fazer quando ainda estávamos namorando, mas está feito, e obviamente tem um significado). Aliás, pensando bem, minha primeira tatuagem, que é uma rosa bem pequena e está bem apagadinha, no meu quadril, tem sim um significado: a minha liberdade de tê-la feito aos 18 anos, depois de anos ouvindo meus pais falarem que eu só poderia fazer uma tattoo quando tivesse 18 e trabalhasse pra ganhar meu dinheiro.

As respostas para as perguntas de sempre:
  • Doeu? Sim. Mas me incomodou mais ficar com o braço parado por muitas horas. Toda vez que a gente fazia uma pausa parecia que eu nunca mais ia conseguir mexer o braço.
  • Quanto tempo levou? Umas 4 horas e meia
  • Quanto foi? Mande email pra tatuadora e faça um orçamento com ela ; )
  • Você não tem medo de se arrepender? Essa é a mesma pergunta que me fazem quando descobrem que não quero ter filhos. Imagina se eu deixar de fazer algo ou fizer algo por causa do medo de arrependimento futuro? Uma decisão assim é algo com o qual temos que convivar e lidar com o possível arrependimento quando ele chegar
  • Você não tem medo de não conseguir emprego por causa das suas tatuagens? Até tenho e sei que existe esse preconceito. Mas se alguém não me contratar por causa disso, essa pessoa é muito babaca e melhor pra mim não trabalhar com alguém com essa mentalidade
  • O que o Martin acha das suas tatuagens? Sério mesmo que você tá me perguntando isso? Veja esse hangout e tente de novo

Leitura: The War On Women, Sue Loyd-Roberts


Sue Lloyd-Roberts morreu logo após terminar de escrever esse livro. Quer dizer, o último capítulo ficou incompleto e quem o terminou foi sua filha. Claro que a morte de qualquer pessoa é motivo para tristeza e lamentação, mas olha, pouca gente deixa um legado tão valioso quanto essa jornalista. Então pra mim, talvez seja fácil falar pois meu único vínculo com ela é o de escritora/leitora, fica algo de positivo: tudo que ela produziu em seus anos de jornalista investigativa, o que acabou culminando nesse livro maravilhoso, que nunca vai sair da minha prateleira.

Sue trabalhou por muitos anos na BBC e visitou regiões remotas e inóspitas, foi pra lugares onde repórteres e cinegrafistas não são bem vindos, peitou autoridades, conversou com vítimas e com criminosos. E, em todos esses lugares, ela notou uma coisa: que as mulheres eram constantemente mais prejudicadas. Por isso o título desse livro: war on women. Mulheres do mundo todo estão em guerra, há décadas (talvez séculos), contra a opressão misógina e patriarcal. E cada capítulo desse livro é dedicado a uma batalha. Um tipo de horror vivido por mulheres em determinadas regiões do mundo.

Não é um livro fácil, não no sentido da narrativa (que é maravilhosa, didática e dinâmica), mas no sentido dos socos no estômago que o leitor leva o tempo todo. O livro já começa com um capítulo falando sobre mutilação genital, aí passa para as avós da Praça de Maio em Buenos Aires que buscam seus netos desparecidos durante a ditadura, vai pra Irlanda contar a história das mulheres que trabalhavam como escravas em lavanderias mantidas por conventos católicos, depois muda pra Índia e Arábia Saudita - dois dos piores países para ser mulher hoje em dia -, e pra finalizar dá uma passadinha nos países do leste europeu pra falar de tráfico de mulheres, que são torturadas e obrigadas a se prostituírem para atender... preparem-se: homens em missão de pacificação da ONU.

Como eu falei no Instagram, leiam esse livro. Agora. E da próxima vez que alguém perguntar por que as mulheres feministas são bravas, você terá - infelizmente - muitas respostas.

Read this book. I urge you. And next time someone tells you that women are too angry, or that women shouldn't complain so much because things are better now, you will tell them about the gender war that is going on for decades. Centuries. You will tell them about the women that have their vaginas mutilated in Egypt and Gambia, the women who were forced to work in laundries managed by Catholic nuns in Ireland, the women who were killed in Argentina after their babies were born and the women that are fighting to find those babies. You will tell them about "honour killings" in Jordan and Pakistan and about women who are marginalised in Saudi Arabia because they don't have a male guardian. You will tell them about women that are raped because they "dare" to be in a public space, about young girls forced to marry men old enough to be their fathers and about women in Bosnia that are sex slaves. You will tell them about how women in the UK still earn less than men. Sue Lloyd-Roberts, a woman I aspire to be, left us too soon (shortly after writing this book), but this book and all her investigative films are a great legacy. Thank you, Sue. #heloreads

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Interpretação de texto


Uma das coisas mais chatas da vida de blogueira - e tenho certeza de que todos os coleguinhas vão concordar comigo, não apenas os que escrevem sobre viagem mas também moda, gastronomia, maternidade... qualquer coisa! - é lidar com a (falta de) interpretação de texto.

Como minha amiga Renata disse outro dia, se todo mundo prestasse atenção no que lê e se responsabilizasse pela sua própria sujeira, teríamos um mundo mais avançado. Eu ainda não tenho a solução pra sujeira, mas a interpretação de texto dá pra gente vencer.

Digamos que eu faça uma viagem para Nárnia. Eu provavelmente irei escrever algo assim: "eu fui pra Nárnia no verão, fui de trem. A viagem levou 54 horas de Londres até lá. Paguei 748959 dinheiros. Chegando em Nárnia eu aluguei um camelo e fui pro hotel. O hotel chama-se Nárnia Inn e cobra 779955 dinheiros a diária. O café da manhã não está inlcuso".

Aí é claro, eu vou colocar umas fotos bonitinhas, mais alguns detalhes, deixar o post bem pessoal, didático e dinâmico.

Vocês querem adivinhar o tipo de pergunta que vai aparecer na caixa de comentários?

"Como é Nárnia no inverno?"
"Quando tempo leva a viagem de trem de Londres pra Nárnia?"
"Quanto custa a passagem?"
"Que hotel você recomenda?"
E o melhor comentário, que tem relação com o que eu escrevi há alguns dias: "ai, achei Nárnia tão sem graça. Vai pra Gotham City, muito melhor."

Eu exercito minha paciência todos os dias ao acessar os comentários do Aprendiz de Viajante. O pior é quando a falta de interpretação de texto prejudica meu ganha pão, como por exemplo as vendas do Guia de Londres. Está super claro no texto quando são feitos os despachos e quanto tempo leva e entrega. Então é sempre um soco no estômago receber emails mal educados de pessoas que dão a entender que estou dando o calote porque compraram o guia há 3 dias e ainda não o receberam.

Gente, pra quem quer poucos caracteres, vá para o Twitter.

Los Descalzi


Os meus sogros estiveram aqui por uma semana (definitivamente a semana mais ensolarada e quente do ano até agora), e o Youtuber Martin aproveitou para fazer mais um videozinho das mini-férias. Como eles já nos visitaram outras vezes, foi bem tranquilo, sem aquela ânsia de acordar cedo pra passear e andar como loucos todos os dias. Mas ainda assim aproveitamos os dias "off", e o resumo está aqui:



Ah, detalhe. O vôo deles chegaria às 7:15 da manhã. Reservamos carro para buscá-los e nos programamos pra madrugar, já que o aeroporto de Heathrow é do outro lado da cidade e sempre tem trânsito pra lá. Da última vez que eles vieram nós chegamos atrasados justamente por causa do trânsito e dessa vez não queríamos dar essa bola fora. Poxa, eles afinal viajaram 12 horas, e ainda tem que ficar esperando no aeroporto?

O despertador estava para às 4:30 da manhã. Quando deu 6:30 o Martin acordou no susto. O despertador não tocou (motivo: o espertão tinha colocado para 4:30 da TARDE) e mais uma vez deixamos os sogros esperando, ainda mais tempo do que a vez passada.

Feminismo em uma palavra


Eu não costumo colocar aqui os vídeos dos hangouts que fazemos no Conexão Feminista, senão o blog ficaria monotemática. Mas essa semana colocamos no ar mais um vídeo colaborativo (que é bem diferente dos hangouts, pois conta com participações voluntárias de outras mulheres). Ficou tão bacana e estou tão orgulhosa dele que não dá pra evitar o jabá.

Pedimos para a mulherada definir feminismo em uma palavra (algumas escolheram duas!). O resultado tá aqui:




Transição




Depois que me mudei pra Londres e aprendi na prática o que havia aprendido na aula de Geografia na escola há muitos anos - que na Europa as quatro estações são bem definidas - eu passei a ter uma estação preferida. O outono.

Mas outra coisa que eu amo nesse lance das quatro estações são as transições entre uma e outra. Principalmente a transição entre inverno e primavera, que está acontecendo agora. Eu não odeio o inverno como a maioria dos brasileiros (e até mesmo dos ingleses) que moram aqui, mas acho que essa época a diferença entre um dia e outro é gritante. Podemos ter 5 graus de manhã e 14 a tarde, ou um dia de muita chuva e frio seguido por um de sol, calor e céu azul. Algumas árvores continuam peladas mas outras já florescem, e outras tantas estão com os botões fechados, mas prontinhos para seguir seu ciclo.

É incrível!

Os parques floridos e os preparativos pro verão, e o pensamento focado nas muitas jarras de Pimm's e churrascos nas casas do amigos nos mantém animados. A gente erra feio na roupa (coloca sapatilha quando chove e bota forrada de lã quando faz calor), mas com sorriso no rosto mesmo assim.

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Já fui


A turma do "já fui" só aparece pra comentar naquela sua foto bacana do Instagram justamente pra escrever isso: já fui! Acho incrível como as pessoas tem o dom de transformar um momento de outra pessoa no momento delas. Podem notar: em qualquer foto de viagem de qualquer pessoa é muito mais fácil encontrar comentários do tipo "já fui" ou "amo esse lugar" ou "que saudades" do que coisas como "que foto bonita", "que delícia de férias" ou "que legal que você está gostando".

Não estou dando indireta pra ninguém, até porque tenho certeza de que eu já fiz isso (e me dei conta depois de ler alguns tuítes de uma amiga comentando esse fenômeno). Mas não deixa de ser irritante. Que necessidade louca de deixar claro que a gente já esteve em tal lugar antes daquela pessoa! A gente se apropria de tudo, até mesmo do momento alheio.

Tem gente que nunca aparece, mas basta eu colocar uma foto de um lugar pelo qual essa pessoa já passou, que lá vem o "já fui".

Resolvi tirar um sarro desses comentários bizarros e fiz um vídeo com o Rafa Maciel, um Youtuber profissa e um querido que mora aqui em Londres. Se você se reconheceu em alguma dessas situações, não tema: quem nunca, não é mesmo?

Eastbourne


Fomos pela primeira vez para Eastbourne há alguns anos e desde então, principalmente depois que o Martin tirou habilitação para dirigir por aqui, voltamos lá para mostrar um dos nossos lugares preferidos na Inglaterra para amigos e familiares.

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Apesar de Eastbourne ser bonitinha - e estar perto do mar, mesmo em um dia feio ou frio pra mim é sempre revigorante - nosso "lugar" é Beachy Head. Um penhasco de cal em uma das pontas das cidades, com uma vista incrível do mar e da cidade. E o melhor: um pub muito, muito lindo.

Já estivemos lá em dia de sol, em dia de vento, em dia gelado. E dessa vez em dia de neblina. Muita neblina! Mal dava para ver o penhasco, muito menos o mar. Então resolvemos esperar no pub e daqui a pouco... tudo aberto! Um dia lindo de sol, e mais uma vez eu me surpreendi com a paisagem, apesar de já conhecê-la tão bem.

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No Starbucks


Hoje eu estava no Starbucks esperando meu café ficar pronto quando um senhor me abordou, disse que era morador de rua, e perguntou se eu tinha algum dinheiro pra dar pra ele. Eu não tinha nenhum dinheiro, mas eu tinha uns morangos na bolsa e perguntei se ele queria. Ele aceitou, e começou a me falar que precisava se cuidar porque tinha diabetes, e ele tinha medido pela manhã e não estava muito bom. Falou que o pessoal do Starbucks deu um café e ele esperava se sentir melhor, porque estava um pouco tonto. Ficamos conversando um pouco ali, ele se despediu e foi falar com outras pessoas.

Eu peguei meu café e segui meu caminho de casa. Hoje foi um dia intenso de passeios pela cidade, pois os meus sogros estão por aqui. O Martin tirou férias e estamos aproveitando todos juntos. Mas foi esse senhor que marcou meu dia.

A janela azul


Em outubro de 2014 eu fiz a minha primeira viagem como blogueira, e na época até contei aqui. Fui para Malta, com passagem e hospedagem pagos. O objetivo da viagem era explorar a ilha de Gozo, menor do que a ilha principal (que dá nome ao país), e sobre a qual eu não conhecia nada. Eu sabia apenas uma coisa: da existência da janela azul (Azure Window).

Por sorte, a casa onde me hospedei com mais três blogeiros era ali perto. Em um dos nossos dias em Gozo, passamos horas na janela azul. Olhando, olhando, olhando. Algumas placas indicavam claramente o perigo de subir no topo da pedra, e pediam para que ninguém o fizesse. Placas solenemente ignoradas por vários turistas, inclusive um dos blogueiros que estava comigo.

Nós chegamos inclusive a fazer um passeio de barco pra ver a janela mais de perto, mas em momento algum passamos por baixo ou ficamos tão perto a ponto de tocá-la.

A janela azul foi uma das coisas mais impressionantes que eu já vi na vida. E hoje ela desabou. Não aguentou a tempestade, e caiu sobre o mar. A janela azul, a atração mais conhecida de Gozo, não existe mais.

Essa formação rochosa iria cair algum dia, fato. Mas o processo foi acelerado pelos milhares de visitantes que, pra falar  "eu fui eu fiz eu fotografei", ignoraram os avisos e caminharam sobre ela. Alguns até pulavam no mar a partir dela. A cada passo lá em cima, a cada pulo, um pouquinho da pedra ia se desfazendo.

Então você, que subiu lá, contribuiu para o desaparecimento da janela azul. Você levou um pedaço dela com você. E não só na foto. Você impediu que outras pessoas, daqui a muitos anos, tivessem o mesmo prazer que você teve ao vê-la. Eu passei uma tarde inteira olhando pra ela, e ninguém mais vai poder fazer isso.

Não leve nada com você. Apenas aprecie. O mundo não gira ao seu redor.


Hiking




Se há alguns anos alguém me falasse que eu iria gostar de fazer caminhadas no campo, eu não teria acreditado. Não sei exatamente a razão, mas nunca me imaginei gastando dinheiro em roupas impermeáveis (e realmente gostando de ir em lojas especializadas) e acordando cedo em um sábado para começar a caminhada cedo e aproveitar o dia ao máximo.

Talvez por ter morado em São Paulo a maior parte da minha vida e achar que "o campo" é a coisa mais distante do mundo, ou talvez por estar mais velha e consequentemente mais calma e com mais vontade de apreciar as coisas mais tangíveis (pequenas alegrias), o fato é que tenho adorado colocar as botas (impermeáveis) nos pés e a mochila nas costas para andar 16km em trilhas nos arredores de Londres.

A gente fez trilha pela primeira vez no País de Gales, já alguns anos. Foi aliás a descoberta da trilha que contorna todo o país que me convenceu de vez que caminhadas no campo são uma das melhores coisas para se fazer em viagens. Aí uma amiga que faz hiking com mais frequências nos arredores de Londres mesmo nos chamou para acompanhar ela e o marido em uma dessas caminhadas há pouco tempo, e descobrimos todo um novo mundo de centenas de trilhas tão perto da nossa casa.

Eu sempre achei que fosse uma pessoa 100% urbana, da "cidade grande", que jamais moraria em um vilarejo ou no meio do nada. Mas de uns anos pra cá, cada vez que saio de Londres e conheço mais um cantinho da Grã Bretanha, entendo que a possibilidade da vida no campo não deve ser descartada. Tendo boa internet, eu vou pra qualquer lugar : )

March On


As vezes acontece de a gente abrir a caixa do correio e se deparar com um envelope diferente daqueles que recebemos todos os dias. Hoje foi um dia assim: que surpresa boa é ver um envelope com remetente e destinatário escrito a mão!

E o melhor: um presente! Um presente de uma pessoa querida, que conheci virtualmente por causa do feminismo. A Marjory, uma participante ativa da nossa comunidade no Conexão Feminista, disse que se lembrou de mim quando viu esse colar. Não é o máximo isso?

Eu também gosto de comprar presentes sem motivo, gosto quando me deparo com algo e me lembro de uma amiga, ou de alguém da minha família. Então eu sei como é especial estar do outro lado, e receber um presente assim.

Em tempo: a expressão "March On" refere-se a Marcha das Mulheres, que aconteceu dia 21 de janeiro em diversas cidades no mundo inteiro. Um protesto que vai ficar pra história, e "march on" significa que a gente deve continuar marchando. Eu vou continuar!

Marjory, muito obrigada pelo presente. Vou usá-lo pela primeira vez ainda essa semana, em um dia especial. Dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher.

Pra quem gostou do colar, a Marjory comprou nessa loja aqui, Piper Cleo, que tem várias coisas lindas.

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50 fatos


Rolou no Snapchat uma brincadeira: falar 50 fatos sobre você (1 snap, 1 fato). Eu meio que torci o nariz no começo, mas acabei adorando descobrir algumas coisas sobre tanta gente bacana que conheço lá. Entrei na dança e fiz os meus, mas sei bem que pouca gente que lê esse blog tem também Snapchat, então eu decidi usar minha sexta feira a noite pra transcrever meus snaps e listar os meus 50 fatos aqui.

Afinal, já que esse é um blog pessoal, que seja também egocêntrico : )

Vale ressaltar que quem lê esse blog religiosamente há mais tempo deve saber mais da metade dessas coisas. Várias já foram assunto de post!

1. Eu nasci em São Paulo, mas tenho sangue catarinense. Toda minha família, dos dois lados, é de SC
2. Eu já morei em São Paulo, Joinville e Recife
3. Quando eu era bebê, fui atropelada. Com a minha mãe e a minha irmã (eu estava no carrinho)
4. Eu sou torcedora do Santos, mas já não tão fanática (porém um dos melhores dias da minha vida foi ver o Santos ganhar o Brasileirão, lá no estádio)
5. Meu primeiro emprego foi na TAM, no Aeroporto de Congonhas. Eu fazia check in e chamava vôo nas salas de embarque
6. Eu estou sempre lendo. Assim que termino um livro, começo outro
7. Eu não bebo cerveja. Nunca gostei.
8. Sempre estudei em colégio católico, mas sou atéia
9. Faz mais de 1 ano que eu uso o mesmo brinco (e nunca tiro, nem pro banho, nem pra dormir, nem pra nadar)
10. Eu casei em 2005
11. Eu adoro música dos anos 80
12. Meu filme preferido é Diários de Motocicleta
13. Alguns dos meus livros preferidos: Equador, O Sonho do Celta, The Luminaries
14. Eu tenho um blog pessoal (ah vá, cê jura????) desde 2004
15. Um hábito britânico que eu não adquiri: tomar chá. Não suporto chá
16. Comecei uma pós graduação em História da Arte, em 2008. Fiz alguns meses, mas as aulas eram aos sábados, o dia todo, e não aguentei
17. eu sou formada em Desenho Industrial pelo Mackenzie e fiz também um curso de Design de Interiores
18. Poucos meses antes de eu me formar, fui contratada pra ser designer da Tok & Stok, onde fiquei por 2 anos e meio (saí para me mudar para Londres)
19. Mas eu já havia trabalhado na Tok & Stok antes, no ano 2000, como vendedora em uma das lojas (a da Marginal Pinheiros em São Paulo)
20. Eu estudei inglês desde os 9 anos de idade, na Cultura Inglesa. Fiz todos os níveis daquela desgraça, desde o Junior 1 até o CPE
21. Eu falo um espanholzinho meio argentinês que aprendi de ouvido, escutando o Martin e a família dele
22. Quase todas as amizades que fiz em Londres foram em consequência desse querido blog
23. A única maquiagem que eu uso no dia a dia é blush. Muito, muito raro eu usar qualquer outra coisa
24. Eu não pinto unha, há muitos anos. Deixo lixadas e hidratadas. Aliás, acho bizarro o ato de pintar as unhas (tema para algum post futuro)
25. Eu tenho várias tatuagens
26. Já saí em um livro sobre 10 jovens designers brasileiros
27. Eu ainda tenho meu ursinho de pelúcia preferido, o Pop, que ganhei aos 5 anos de idade
28. Minha primeira vez fora do Brasil foi em 1997, quando fui para Bariloche como viagem de formatura do terceiro colegial
29. Eu nunca tinha viajado pra Europa antes de me mudar para Londres
30. Eu sou autora de um guia de Londres
31. Em 2012 eu escrevi uma carta para eu mesma, que será aberta em 2024
32. Eu vi a seleção brasileira feminina de vôlei levar o ouro nas Olimpíadas de 2012 aqui em Londres
33. Eu escrevo uma coluna sobre feminismo para o jornal Brasil Observer
34. Eu tenho um canal sobre feminismo no YouTube
35. Eu e a Renata, minha sócia no Conexão Feminista, somos amigas há mais de 25 anos
36. Eu sou curta e grossa, não gosto de rodeios
37. Já fiz a cirurgia a lser da miopia. Foi libertador, recomendo
38. Minha comida preferidas: sushi/sashimi e feijoada
39. Meu sonho de infância é ter um cachorro
40. Minha cidade preferida no mundo (sem contar as cidades do coração como São Paulo, Londres, Recife, Buenos Aires) é Veneza
41. Tenho vários grupos de amigas e fico tensa quando esses grupos se encontram - medo de elas não gostarem umas das outras
42. Eu não sofro com o clima de Londres. Não reclamo do inverno ou da chuva
43. Eu pratico corrida com o meu marido, já fizemos várias provas de 10km e uma meia maratona juntos
44. Eu faço ballet, mas comecei já adulta, há uns 10 anos
45. ODEIO quando me falam que eu sou "sortuda" porque meu marido é quem cozinha
46. Não sou muito de balada, mas adoro ir em show
47. Duas vezes por semana, pela manhã, eu trabalho em uma ONG que oferece proteção a vítimas de violência doméstica
48. Odeio sopa, culpa da minha mãe que também odeia e fazia cara de ânsia de vômito quando cozinhava sopa pro meu pai
49. Detesto cozinhar, mas a única coisa que faço questão de fazer é a maionese com a receita da minha mãe na ceia de Natal
50. Teve um dia, há muitos anos, que eu achei que meu pai tinha ganhado a mega sena e não queroa me falar

Leitura: 20, Branca Sobreira


Uma amiga querida (que ainda não conheço pessoalmente, mas somos chegadas do mundo virtual há muito tempo!) sorteou esse livro e - prometo que não teve marmelada - eu ganhei! O "20" é uma seleção de 20 (pegou, pegou?) micro contos, e é o primeiro livro publicado da Branca Moreira (que por sua vez é amiga da minha amiga).

São micro contos mesmo: a maioria tem um ou dois parágrafos. Consegui ler de uma tacada só (mais precisamente, no metrô, em cerca de 15 estações!). Eu achei que os contos tem um "que" de poesia, são super bonitos.

Foi ótimo pra dar uma espairecida entre minha busca pelo conhecimento feminista (que continua, próximo livro já selecionado!), e o melhor, escrito por mulher : )

Leitura: Shrill (Notes From a Loud Woman), Lindy West


Comprei esse livro no mesmo dia do livro que postei anteriormente, e resolvi ler logo em seguida pois me pareceu o "contraste" perfeito: uma narrativa mais informal, com um toque de comédia e, principalmente, usando as experiências da autora como exemplo.

Lindy West mora em Seattle, e escreve para várias revistas, sites e jornais. Já trabalhou no Jezebel, e hoje em dia escreve na GQ e no Guardian.

O livro é uma espécie de autobiografia. Ela compartilha suas experiências com gordofobia e misoginia, e usando esses exemplos pessoais nos faz perceber e entender o problema de forma geral. Como ela começou a carreira escrevendo sobre comédia, foi uma das primeiras mulheres a questionar o machismo inerente nas piadas com estupro, abuso e machismo no geral.

Por causa de sua forte presença nas redes sociais, recebeu uma infinidade de abusos e ameaças. E por ser gorda, esses abusos são ainda mais cheios de ódio e violência.

Bom, como ela é americana, o livro tem várias referências (nomes de celebridades ou até mesmo gírias) que pra quem não é de lá não fazem muito sentido. Perdi algumas piadas, mas isso é só um detalhe se comparado a mensagem do livro.

Esse é o tipo de livro que vai satisfazer os leitores de blogs pessoais! E nada como colocar um problema imenso da sociedade e explicá-lo usando a vida de uma pessoa como exemplo pra coisa fazer sentido.

Saudades do sistema


Acho que o título mais apropriado para essa postagem seria "saudades do salário". Eu sabia que seria demorado pra ganhar a mesma coisa que recebia como uma funcionária em tempo integral em uma grande empresa, mas eu não sabia que isso ia me afetar tanto. Ser blogueira e escritora freelancer dá dinheiro sim, mas pra conseguir chegar perto de um salário fixo é preciso trabalhar dez vezes mais. Vinte. Cem. Sei lá, vocês entenderam.

Essa semana estou completando um ano dessa vida, que ainda me parece uma novidade. Não estou completamente convencida de que meu caminho é realmente esse, mas agora sei que não tem certo e errado. E aí a gente convive com as nossas escolhas, e quem sabe o caminho novo nos faz perceber que o jeito "antigo" não era assim tão ruim. Mas a gente nunca volta pra estaca zero, porque né, não é que ficamos vendo televisão o dia todo.

Mas enfim, seguimos. Sem holerite, mas fazendo recibos e invoices e torcendo pro cliente pagar logo.

Leitura: Why Women Need Quotas, Vicky Price


Como vocês já devem ter percebido, eu ando me dedicando as leituras feministas ultimamente. Notei também que as livrarias agora tem seções (pelo menos um pedacinho de prateleira) de feminismo, e fica difícil resistir! Sinto que tem tanta coisa que eu preciso aprender, e quanto mais eu leio mais interesse tenho. Acho que essa fase vai durar um bom tempo, pois a pilha continua grande.

O mais recente é esse (Porque mulheres precisam de cotas), da economista Vicky Price. Não está entre os meus favoritos desse grupo de livros, mas ainda assim achei relevante. Apresenta diversos fatos e estatísticas que suportam a ideia de criar cotas para garantir que mais mulheres assumam posições de senioridade em grandes empresas.

Eu tenho algumas objeções as questões colocadas por Vicky (resumidamente, acho que o livro é escrito por uma mulher privilegiada que não reconhece seu privilégio para outras mulheres privilegiadas), mas como já falei, tem sua relevância. Principalmente para argumentar com os que acham que mulheres "escolhem" carreiras menos lucrativas. Aliás, se esse é um assunto que interessa, recomendo assistir esse hangout que eu e a Renata fizemos recentemente.




A socialzona


Tá rolando nas redes sociais um meme (Eu odeio essa palavra, meme, da onde surgiu essa expressão?), sobre as pessoas que quando você pergunta "vamos?", respondem "vamos!".

Bom, eu costumava ser a pessoa que respondia, "não tô afim" ou qualquer coisa do tipo, mas um belo dia eu resolvi mudar. Não se exatamente a razão, mas sei que minha agenda anda cheia (tô metida!). Entre as aulas de ballet, as corridas e as saidinhas aqui e ali, não tem sobrado muitos dias livres pra ficar em casa a noite e me atualizar no Netflix (continuo na segunda temporada de Orange is the new black).

Claro que essa vida de não ter um trabalho fixo ajuda. Dá pra fazer uma social com os outros amigos que estão no limbo também são frilas/bloggers como eu. A única coisa que muda é o que estamos bebendo: café quando é no meio do dia. Aperol Spritz (ou simiar) quando é no horário dos trabalhadores sérios. Porque as mágoas são choradas igualmente (e os sucessos celebrados, claro!), independente da bebida na mesa.

Sugestões




Quando a gente tem um problema ou enfrenta um impasse, e quando a gente compartilha isso com alguém, não dá pra evitar: vamos receber uma enxurrada de sugestões. Bem intencionadas, eu sei (e tenho certeza de que já fiz isso, não estou apontando dedo pra ninguém, apenas fazendo uma reflexão), mas que mais atrapalham do que ajudam. Na maior parte das vezes, atrapalham.

Ano passado, quando eu deixei meu trabalho fixo para me aventurar como blogueira e freelancer, passei por algo assim. Passados alguns meses eu já não tinha certeza de que tinha feito a melhor decisão, e comecei a considerar as opções. E bastou eu compartilhar essa insegurança para ser metralhada com soluções para o meu impasse. Mas eu só queria falar. Eu sabia quais eram as opções possíveis, mas não estava certa de que caminho tomar. Estava em um limbo, e precisava lidar com esse limbo no meu tempo.

Ouvir as diversas soluções propostas apenas exaltou o meu sentimento de ter fracassado. Afinal, com tantas opções, como eu poderia estar na dúvida? Escolhe uma e vai, oras!

Isso é muito cansativo. As vezes a gente só quer compartilhar um momento difícil, sem discutir as possibilidades. Apenas falar. Acho que só uma pessoa (uma colega do ex trabalho aliás) me falou algo que realmente ajudou: lembre-se de que isso é temporário. Pronto, ela entendeu. Não me deu soluções geniais, não me fez sentir uma derrotada por não saber que passo dar.

Será que a gente vem com essas mil soluções não solicitadas quando alguém desabafa com a gente porque não temos a menor ideia de como lidar com a dúvida? Parece que a vida de todo mundo ao nosso redor tem que ir ao encontro das nossas ideias. Não há tempo para a dúvida! Você está desperdiçando seu talento! Vai produzir!

Portanto, antes de dar uma sugestão, pense: será que a pessoa já não pensou nisso? Você tem certeza de que o que você vai sugerir é tão inovador que não passou pela cabeça da pessoa antes? Será que ajudar ouvindo não é melhor que ajudar falando?

Afinal, já diz o velho ditado: se conselho fosse bom...